segunda-feira, 13 de julho de 2015

O Jesus humano de Saramago e o humano Jesus de Chico Buarque

            O CD “Construção” de Chico Buarque abriga uma das maiores adaptações musicais existentes em nosso país. A música “Minha História” é adaptada de uma canção italiana de nome Gesùbambino composta em 1971, composta por Lúcio Dalla e Palotino. A composição tem como narrador onisciente os filhos das mães solteiras no período da segunda guerra mundial, engravidadas por soldados que partiam ao término da guerra, deixando-as com “o olhar cada dia mais longe”.



Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente, laiá, laiá, laiá, laiá
Ele assim como veio partiu não se sabe prá onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido, cada dia mais curto, laiá, laiá, laiá, laiá
Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré, laiá, laiá, laiá, laiá
Minha mãe não tardou alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor, laiá, laiá, laiá, laiá
Minha história e esse nome que ainda carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus, laiá, laiá, laiá, laiá
           
            Chico Buarque, por ser amigo de um dos compositores, pediu permissão para que realizasse uma adaptação da música para a realidade Brasileira. De inicio, gostaria de chamá-la de “Menino Jesus” (na verdade, Chico brincava dizendo que gostaria de chamar de “filho da puta”) mas a época era da ditadura militar e obviamente o título seria proibido. Assim, surgiu o título “Minha história” para a obra.
          A canção pode ser lida em paralelismo teológico com a obra do grande Saramago, “O evangelho segundo Jesus Cristo”. Ambos utilizaram-se da “teologia da libertação” para definir seus personagens centrais. Embora, Saramago rescreva a história de Jesus Cristo, Chico cria a história de um personagem novo, adaptado a realidade brasileira que é intitulado pelo nome de “Jesus” um pouco por ironia e um pouco por vaidade.

Evangelho Segundo Jesus Cristo - Saramago - Companhia das Letras
           Assim como Saramago sofreu opressão e censura ao expor sua obra, com Chico não foi diferente. O regime ditatorial classificou a música como uma paródia grotesca com o uso indevido do nome de Jesus Cristo. De forma cômica, é possível achar críticas parecidas – se não iguais – à obra de Saramago.
            Chico explicou a poesia de sua canção com as palavras:
O texto conta a história da mulher que se apaixona, como tantas outras, por um aventureiro que parte, como tantos outros, e do filho que nasce sem pai, como tantos outros. O poema - é um poema - difere dos demais pela maneira singela como a autora aborda o problema da mãe solteira. Nada de abortos, de fugas, nada de entregar o filho a um orfanato ou deixá-lo à porta de uma Igreja. A mãe, desesperada, alucinada, “com o olhar cada dia mais longe”, simplesmente dá ao filho o nome de Jesus. Um pouco por alucinação, mas também por ignorância. Um pouco por devoção, "por ironia ou por amor". E um pouco, entende-se, para se comparar à Virgem Maria e se isentar de qualquer pecado. Finalmente temos o filho feito homem, igual a todos os homens, pequeno como todos os mortais, fraco demais para carregar às costas o nome de Jesus Cristo. E é só isso o poema
            Ambos gênios conseguem desmitificar a personalidade sagrada de Jesus Cristo. Em ambas obras vemos um Jesus humanizador, o Jesus Cristo real de Saramago se considera tão humano quanto o humano de Chico se considera Jesus. 



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